março 31, 2004

Uma Flor de Verde Pinho

Eu podia chamar-te pátria minha dar-te o mais lindo nome português podia dar-te um nome de rainha que este amor é de Pedro por Inês. Mas não há forma não há verso não há leito para este fogo amor...



E Depois do Adeus

E Depois do Adeus Quis saber quem sou O que faço aqui Quem me abandonou De quem me esqueci Perguntei por mim Quis saber de nós Mas o mar Não me traz Tua voz. Em silêncio, amor Em tristeza...



Canção da América

Canção da América Amigo é coisa pra se guardar Debaixo de sete chaves Dentro do coração Assim falava a canção Que na América ouvi Mas quem cantava chorou Ao ver seu amigo partir Mas quem ficou No pensamento voou...



Timor

Timor Lavam-se os olhos nega-se o beijo do labirinto escolhe-se o mar no cais deserto fica o desejo da terra quente por conquistar. Nobre soldado que vens senhor por sobre as asas do teu dragão beijas os corpos no...



Um Homem na Cidade

Um Homem na Cidade Agarro a madrugada como se fosse uma criança, uma roseira entrelaçada, uma videira de esperança. Tal qual o corpo da cidade que manhã cedo ensaia a dança de quem, por força da vontade, de trabalhar...



Gaivota

Gaivota Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é uma asa que não voa, esmorece e cai no mar. Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor...



Verdes São os Campos

Verdes São os Campos Verdes são os campos, De cor de limão: Assim são os olhos Do meu coração. Campo, que te estendes Com verdura bela; Ovelhas, que nela Vosso pasto tendes, De ervas vos mantendes Que traz o...



Trova do Vento Que Passa

Pergunto ao vento que passa notícias do meu país e o vento cala a desgraça o vento nada me diz. Pergunto aos rios que levam tanto sonho à flor das águas e os rios não me sossegam levam sonhos...



Menina dos Olhos de Água

Menina dos Olhos de Água Menina em teu peito sinto o Tejo e vonta des marinheiras de aproar Menina em teus lábios sinto fontes de água doce que corre sem parar Menina em teus olhos vejo espelhos e em...



Amando Sobre os Jornais

Amando Sobre os Jornais Amando noites afora Fazendo a cama sobre os jornais Um pouco jogados fora Um pouco sábios demais Esparramados no mundo Molhamos o mundo com delícias As nossas peles retintas De notícias Amando noites a fio...



março 28, 2004

Estela e Nize

Estela e Nize Eu vi a linda Estela e, enamorado, Fiz logo eterno voto de querê-la; Mas vi depois a Nize, e achei tão bela, Que merece igualmente o meu cuidado. A qual escolherei, se neste estado Não posso...



Último Sonêto

Último Sonêto Já da noite o polar me cobre o rosto, Nas lábios meus o alento desfalece, Surda agonia o coração fenece, E devora meu ser mortal desgôsto! Do leito, embalde no macio encôsto, Tento o sono reter!... Já...



Voz Íntima

Voz Íntima Fecha-te, sofredor, na sala túnica ondeante Dos sonhos! E caminha, e prossegue, embebido, Muito embora, na dor de um fiel celebrante De um estranho ritual desdenhado e esquecido! Deixa ressoar em tôrno o bárbaro alarido, Deixa que...



Último Credo

Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum, Amo o coveiro - êste ladrão comum, Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous, é o pneuma,...



Idealismo

Falas de amor e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. É. E é por isto que na minha lira De amôres fúteis poucas vêzes falo. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!...



Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas, Templos de priscas e longínquas datas, Onde um nume de amor em serenatas, Canta a aleluia virginal das crenças. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E...



Névoas

Névoas Nas horas tardias que a noite desmaia Que rolam na praia mil vagas azuis, E a lua cercada de pálida chama Nos mares derrama seu prante de luz, Eu vi entre os flocos de névoas imensas, Que em...



Metamorfose

Metamorfose Meu coração repleto de esplendores Como as grutas fantásticas do Ocidente, Será digno de ti. Por ti sòmente Foi que eu junquei meu coração de flôres. Por ti despi-o das passadas côres, Por ti sequei a lágrima pungente,...



Rosário

Rosário E eu que era um menino puro Não fui perder minha infância No mangue daquela carne! Dizia que era morena Sabendo que era mulata Dizia que era donzela Nem isso não era ela Era uma môça que dava....



março 27, 2004

Tabacaria

Tabacaria Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe...



Odes

Odes Segue o teu destino, Rega as tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto é a sombra De árvores alheias. A realidade Sempre é mais ou menos Do que nós queremos. Só nós somos sempre Iguais a nós-próprios....



O Guardador de Rebanhos (IX)

O Guardador de Rebanhos (IX) Sou um guardador de rebanhos O rebanho é os meus pensamentos E os meus pensamentos são todos sensações. Penso com os olhos e com os ouvidos E com as mãos e os pés E...



Natal de 1971

Natal de 1971 Natal de quê? De quem? Daqueles que o não têm? Dos que não são cristãos? Ou de quem traz às costas as cinzas de milhões? Natal de paz agora nesta terra de sangue? Natal de liberdade...



Arma Secreta

Arma Secreta Tenho uma arma secreta ao serviço das nações. Não tem carga nem espoleta mas dispara em linha recta mais longe que os foguetões. Não é Júpiter, nem Thor, nem Snark ou outros que tais. É coisa muito...



Felicidade

Felicidade Busquei felicidade uma vida Até descobrir que, por fim, Essa emoção mais querida Vivia dentro de mim. (E, nesta busca perpétua, Hei-de viver inseguro Procurando encontrar em mim O que sou quando a procuro.)   Copyright ©2002 Luís...



Existir

Existir Toda a existência é efémera, Como a efemeridade, ela própria. Existirmos é não estarmos sós, Ainda que habitados pela solidão. Existirmos, É sermos cúmplices de nós próprios. É ousarmos percorrer Todos os caminhos ignotos, Dentro de nós e...



março 24, 2004

Vou-me Embora P'ra Pasárgada

Vou-me Embora P'ra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Aqui eu não sou feliz Lá a...



Soneto da Separação

Soneto da Separação De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento Que dos...



Menina dos Olhos Tristes

Menina dos Olhos Tristes Menina dos olhos tristes O que tanto a faz chorar? - O soldadinho não volta Do outro lado do mar. Senhora de olhos cansados, Por que a fatiga o tear? - O soldadinho não volta...



Língua Portuguesa

Língua Portuguesa Última flor do Lácio, inculta e bela, És a um tempo, esplendor e sepultura: Ouro nativo, que na ganga impura Abruta mina entre os cascalhos vela... Amo-te assim, desconhecida e obscura. Tuba de alto clangor, lira singela,...



Poesia-Orgasmo

Poesia-Orgasmo De silabas de letras de fonemas se faz a escrita. Não se faz um verso. Tem de correr no corpo dos poemas o sangue das artérias do universo. Cada palavra há-de ser um grito. Um murmúrio um gemido...



Paraíso

Paraíso Deixa ficar comigo a madrugada, para que a luz do Sol me não constranja. Numa taça de sombra estilhaçada, deita sumo de lua e de laranja. Arranja uma pianola, um disco, um posto, onde eu ouça o estertor...



Povo que Lavas no Rio

Povo que Lavas no Rio Povo que lavas no rio Que vais às feiras e à tenda Que talhas com teu machado As tábuas do meu caixão, Há-de haver quem te defenda, Quem turve o teu ar sadio, Quem...



março 23, 2004

Inominado

Inominado Primeiro foi o sonho, Inopinado e louco. Depois a audácia, O corrupio, o sufoco. Foi a nostalgia. A dor da saudade. Foi do trabalho o tesão. Foram dúvidas e inseguranças. Foi o coma da traição. Foram os cansaços....



Nocturno

Nocturno Espírito que passas, quando o vento Adormece no mar e surge a Lua, Filho esquivo da noite que flutua, Tu só entendes bem o meu tormento... Como um canto longínquo – triste e lento – Que voga e...



Oh! Liberdade!

Oh! Liberdade!  Para Sandra Lobo Se eu pudesse pelas frias manhãs acordar tiritando fustigado pela ventania que me abre a cortina do céu e ver, do cimo dos meus montes, o quadro roxo, de um perturbado nascer do sol...



Sou de Outras Coisas 

Sou de Outras Coisas  Sou de outras coisas pertenço ao tempo que há-de vir sem ser futuro e sou amante da profunda liberdade sou parte inteira de uma vida vagabunda sou evadido da tristeza e da ansiedade Sou doutras...



março 22, 2004

Pudesse Eu

Pudesse Eu Pudesse eu não ter laços nem limites Ó vida de mil faces transbordantes Para poder responder aos teus convites Suspensos na surpresa dos instantes! Copyright ©Sophia de Mello Breyner Andresen...



How Do I Love Thee?

(Sonnets from the Portuguese) XLIII - How Do I Love Thee?   (Sonetos dos Portugueses) XLIII - Como Te Amo? How do I love thee? Let me count the ways. I love thee to the depth and breadth and...



Cântico Negro

Cântico Negro "Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces, Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom se eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui"! Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos meus olhos,...



março 21, 2004

Plenos Poderes

Plenos Poderes   Dia Mundial da Poesia 21 de Março de 2004 Homenagem a Pablo Neruda A PURO sol escribo, a plena calle, a pleno mar, en donde puedo canto, sólo la noche errante me detiene pero en su...



Barca Bela

Barca Bela Pescador da barca bela, Onde vais pescar com ela. Que é tão bela, Oh pescador? Não vês que a última estrela No céu nublado se vela? Colhe a vela, Oh pescador! Deita o lanço com cautela, Que...



Na Idade dos Porquês

Na Idade dos Porquês Professor diz-me porquê? Por que voa o papagaio que solto no ar que vejo voar tão alto no vento que o meu pensamento não pode alcançar? Professor diz-me porquê? Por que roda o meu pião?...



março 20, 2004

Estar Sem Ti

Estar Sem Ti Estar sem ti é o vazio. A solidão mais profunda. É viver num desvario. Fazer da vida rotunda. Estar sem ti é o não estar Onde por virtude esteja. É sentir o peito rasgar Por saudades...



março 19, 2004

Máquina do Mundo

Máquina do Mundo O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma. Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea. Espaço vazio, em suma. O resto, é a matéria. Daí, que este arrepio, este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo, esta fresta de...



Ser Poeta

Ser Poeta Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além-Dor É ter de mil...



Autopsicografia

Autopsicografia O poeta é um fingidor, finge tão completamente, Que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve,...



De Tarde

De Tarde Naquele "pic-nic" de burguesas, Houve uma coisa simplesmente bela, E que sem ter história nem grandezas, Em todo o caso dava uma aguarela. Foi quando tu, descendo do burrico, Foste colher, sem imposturas tolas, A um granzoal...



março 18, 2004

Da Ferida

Da Ferida Regresso, depois da litania, à contemplação sem voz. A memória da música é amarga, quando estou só. Os quartetos de Beethoven arrancam-me uma parte do corpo em substância. Ferida, terei de ir ainda à cidade dia a...



Eu Vi a Luz Em Um País Perdido

Eu Vi a Luz Em Um País Perdido Eu vi a luz em um país perdido. A minha alma é lânguida e inerme. Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído! No chão sumir-se, como faz um verme…   Copyright ©...



Tenho Dó das Estrelas

Tenho Dó das Estrelas Tenho dó das estrelas Luzindo há tanto tempo, Há tanto tempo… Tenho dó delas. Não haverá um cansaço Das coisas, De todas as coisas Como das pernas ou de um braço? Um cansaço de existir,...



Elegia do Amor



Sete Anos de Pastor Jacob Servia

Sete Anos de Pastor Jacob Servia Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; mas não servia ao pai, servia a ela, e a ela só por prémio pretendia. Os dias, na esperança de um...



O Amor Em Visita



Rosto

Rosto Rosto nu na luz directa. Rosto suspenso, despido e permeável, Osmose lenta. Boca entreaberta como se bebesse, Cabeça atenta. Rosto desfeito, Rosto sem recusa onde nada se defende, Rosto que se dá na angústia do pedido, Rosto que...



A Primeira Palavra

A Primeira Palavra Acompanhando a recente curvatura da terra o primeiro olhar descreveu a sua órbita sobre as oliveiras. Só mais tarde a pomba roubaria o ramo e iria de árvore em árvore propagar a primavera. Foi então que...



Um Dia de Inúteis Agonias

Um Dia de Inúteis Agonias Foi um dia de inúteis agonias, Dia de sol, inundado de sol. Fulgiam, nuas, as espadas frias. Dia de sol, inundado de sol. Foi um dia de falsas alegrias. Dália a esfolhar-se, o seu...



Sobre Um Poema

Sobre Um Poema Um poema cresce inseguramente na confusão da carne, sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto, talvez como sangue ou sombra de sangue pelos canais do ser. Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência ou...



Mas Que Sei Eu

Mas Que Sei Eu Mas que sei eu das folhas no outono ao vento vorazmente arremessadas quando eu passo pelas madrugadas tal como passaria qualquer dono? Eu sei que é vão o vento e lento o sono e acabam...



Cena do Ódio



Poemeto a Lara

Poemeto a Lara   Gedichtje voor Lara Escuto no silêncio do discurso A tua respiração travessa Leio o tracejado cintilante Dos pensamentos mudos E o sorriso esboçado É o cego obrigado Por te dares... ...Tão fielmente A conhecer.  ...



Mãos Dadas

Mãos Dadas Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é...



O Acto Sexual É Para Fazer Filhos

"O Acto Sexual É Para Fazer Filhos" - disse ele Um poema de Natália Correia a João Morgado, deputado do CDS/PP Já que o coito - diz Morgado - tem como fim cristalino, preciso e imaculado fazer menina ou...



Serenidade És Minha



Saudade

Saudade   Heimwee Por uma rua deserta Altas horas, chuva e frio Só meus passos na calçada Oiço, caminhando para nada Ou em busca do destino. No outro lado do Mundo, O teu dia é o passado. O meu,...



Análise de Absinto

Análise de Absinto Sou aquele que passou desconhecido no madrugar do conhecimento. Sou o pobre, o coitado, O triste, o arruinado, O amante, o amado. Sou o gato e a serpente, O lúcido e o demente, Éter e corpo...



Le Discours Sur La Paix

Le Discours Sur La Paix   O Discurso Sobre A Paz Vers la fin d'un discours extrêmement important le grand homme d'Etat trébuchant sur une belle phrase creuse tombe dedans et désemparé la bouche grande ouverte haletant montre les...



Y Uno Aprende

Y Uno Aprende   E Aprendemos Después de un tiempo, uno aprende la sutil diferencia entre sostener una mano y encadenar un alma, y uno aprende que el amor no significa acostarse y una compañía no significa seguridad y...



Ausência

Ausência Num deserto sem água Numa noite sem lua Num país sem nome Ou numa terra nua Por maior que seja o desespero Nenhuma ausência é mais funda do que a tua. . Copyright ©Sophia de Mello Breyner Andresen...



Livro de Horas

Livro de Horas Aqui diante de mim, Eu, pecador, me confesso De ser assim como sou. Me confesso o bom e o mau Que vão ao leme da nau Nesta deriva em que vou. Me confesso Possesso Das virtudes...



Poema da Malta das Naus

Poema da Malta das Naus Lancei ao mar um madeiro, Espetei-lhe um pau e um lençol. Com palpite marinheiro Medi a altura do sol. Deu-me o vento de feição, Levou-me ao cabo do mundo. Pelote de vagabundo, Rebotalho de...



março 17, 2004

A Verdade

A Verdade Não sei se estou certo ou errado Não sei se vejo o que não existe Se serei o inocente ou culpado Apenas que, sem ti, fico triste. Não sei se é Inverno ou Verão Se é de...



Não Te Amo Mais

Não Te Amo Mais Não te amo mais. Estarei mentindo dizendo que Ainda te quero como sempre quis. Tenho certeza que Nada foi em vão. Sinto dentro de mim que Você não significa nada. Não poderia dizer jamais que...