março 27, 2004

Arma Secreta

Arma Secreta

Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguetões.

Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor
que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.

A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis de furalina.

Erecta, na noite erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.

 
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março 19, 2004

Máquina do Mundo

Máquina do Mundo

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

 
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março 18, 2004

Poema da Malta das Naus

Poema da Malta das Naus

Lancei ao mar um madeiro,
Espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
Medi a altura do sol.

Deu-me o vento de feição,
Levou-me ao cabo do mundo.
Pelote de vagabundo,
Rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,
Pasmei na orla das praias,
Arreneguei, roguei pragas,
Mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
Tive o corpo em chagas vivas,
Estalaram-me as gengivas,
Apodreci de escorbuto.

Com a mão direita benzi-me,
Com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
Outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
Ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
Rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
A lambique de suores.
Estendi na areia e na relva
Mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
A que outros chamaram seu,
Mas quem mergulhou no fundo
Do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
Nas praias de Portugal.

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