março 19, 2004

Autopsicografia

Autopsicografia

O poeta é um fingidor,
finge tão completamente,
Que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda,
Gira a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

 
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março 18, 2004

Tenho Dó das Estrelas

Tenho Dó das Estrelas

Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo…
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas
Como das pernas ou de um braço?
Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir…
Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão –
Qualquer coisa assim
Como um perdão?

 
Copyright © Fernando Pessoa
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