Deus
criou o homem e a mulher e logo depois o cavalo, que tem a força
do homem e a beleza e sedução da mulher.
Eu
criei-te a ti, dentro de mim.
Criei-te
intuição, sensibilidade, força, determinação,
beleza, sedução. Criei-te e recriei-te, em cada
momento dos nossos olhares; das palavras escritas ou ditas nunca
renegadas; nas noites perdidas e tão desejadas.
Criei-te
nos amanheceres frios e húmidos duma cidade senil e triste
e recriei-te no anoitecer calmo duma cidade gentil e alegre. Criei-te
no momento em que nossas bocas se uniram e recriei-te docemente
nesse em que nossos corpos se colaram.
Das
imagens, das sensações, dos gestos, dos vazios,
das emoções, fiz o teu retrato e contemplei-o, embevecido,
serenamente.
Não
te dei palavras, nem poemas, nem promessas. Não te enchi
de fútilidades em jogos de sedução ventríoloquos.
Não houve lugar a rancores, nem dores, quando parti. Apenas
tristeza por não seres minimamente como te senti.
Eis
o teu retrato, hibrído equino dos meus amores.